O Congado de Arcos amanheceu em luto nesta quarta-feira, 25 de março. A cidade se despede de uma de suas mais importantes lideranças culturais e religiosas: a capitã do terno Congo Sereno, Gislene Aparecida Miguel, a Didi, que faleceu aos 55 anos, deixando um legado profundo de fé, tradição e resistência.

Gislene não foi apenas uma integrante do Congado — ela foi continuidade viva de uma história que começou antes dela. Filha de congadeiros, teve sua trajetória entrelaçada com a tradição desde o nascimento. O terno Congo Sereno, que viria a liderar, surgiu ainda na geração de seus pais, formado na Fazenda Boa Vista, nas proximidades de Bambuí, como expressão de fé e identidade cultural.

Sua ligação com o Congado começou cedo, aos apenas 3 anos de idade. Desde então, nunca mais se afastou. Após o falecimento de seu pai, em janeiro de 2002, Gislene, ao lado de sua mãe, assumiu a responsabilidade de manter viva a tradição. Com a perda da mãe, em 2009, ela seguiu firme, amparada pela “família Congo Sereno”, assumindo de vez a missão de conduzir o terno e garantir que a chama da cultura congadeira continuasse acesa.

Mais do que liderança, sua atuação era movida por um profundo sentido espiritual. Em um de seus depoimentos, Gislene resumiu aquilo que guiou toda a sua vida:

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“Prezo muito pela cultura, mas mais pela religião, porque pra mim Congado é religião, fé, devoção, onde expresso meus agradecimentos a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São Jorge, Nossa Senhora das Mercês e todos os santos; expresso os agradecimentos por tantas graças recebidas.”

Essa fé se traduzia em cada apresentação. Quando cantava e conduzia orações, não havia quem não se sentisse tocado. Sua presença tinha força, tinha verdade — era impossível passar despercebida.

Ao longo dos anos, levou o nome do Congado de Arcos para diversas cidades de Minas Gerais, tornando-se referência e orgulho para a cultura popular do município. Dentro de casa, também cumpriu seu papel de continuidade: deixou filhos, netos e uma família inteira inserida na tradição, com os filhos seguindo ativamente no Congado.

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Antes do cortejo para o sepultamento, os congadeiros prestarão uma última homenagem à capitã, em um momento de fé, emoção e reconhecimento por tudo o que ela representou.

A despedida acontece nesta quarta-feira no Velório Bom Pastor, em Arcos. O cortejo sairá às 18h em direção ao Cemitério Municipal.

A Associação do Congado de Nossa Senhora do Rosário manifestou profundo pesar pela perda:

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“Neste momento de dor, nos unimos em oração e solidariedade à família, amigos e a toda comunidade congadeira. Perdemos uma grande líder, uma mulher de fé e um pilar da nossa tradição.”

A Paróquia Nossa Senhora do Rosário, por meio do padre Kerol Reis de Paula, também prestou homenagem:

“Lamentamos profundamente a partida da Capitã Gislene, mulher de fé e dedicada à tradição do Congado. Sua vida foi testemunho de devoção e amor à cultura do nosso povo. Rezamos para que Deus a acolha em sua infinita misericórdia e conceda consolo à família e a toda comunidade.”

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Arcos perde hoje não apenas uma capitã, mas uma de suas maiores referências culturais e espirituais. Permanece, no entanto, um legado que não se apaga: ele ecoa nos tambores, nas orações, nos passos do Congado — e na fé de um povo que seguirá honrando sua memória.