O grupo J&F Investimentos, controlador da JBS, está analisando a aquisição do controle da CSN Cimentos, braço de cimento da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A operação é estimada em pelo menos R$ 10 bilhões, incluindo dívidas, e integra o plano de desinvestimentos liderado pelo controlador da CSN, Benjamin Steinbruch, com foco na redução da alavancagem financeira do grupo.

Venda integra plano de desalavancagem

A CSN pretende levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões com alienações de ativos. A companhia encerrou setembro com dívida líquida próxima de R$ 40 bilhões e relação dívida/Ebitda de 3,14 vezes — indicador que acendeu alerta no mercado. Desde novembro, a empresa sofreu rebaixamentos de rating por parte de S&P Global, Fitch Ratings e Moody's, que apontaram preocupações com o nível de endividamento, consumo de caixa e desempenho mais fraco nos segmentos de siderurgia e mineração.

Dentro desse contexto, a venda do controle da CSN Cimentos é vista como o principal pilar do plano de reequilíbrio financeiro, já que o ativo é considerado um dos mais líquidos do grupo.

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Negociações em fase inicial

Segundo fontes próximas às tratativas, a proposta foi apresentada à J&F há menos de um mês, e a holding demonstrou interesse. O processo ainda está em estágio preliminar, sem definição de valores ou termos finais. As empresas mantêm cautela: a J&F informou que não comenta o assunto, enquanto a CSN declarou que não irá se manifestar.

A eventual transação conta com assessoria financeira dos bancos Morgan Stanley e Banco Santander, indicando que o negócio está sob avaliação técnica e financeira.

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Modelo pode incluir criação de nova empresa

Uma das alternativas estudadas prevê a criação de uma NewCo, empresa segregada da atual estrutura da CSN. Nesse formato, a J&F faria aporte de capital e assumiria participação majoritária, enquanto Steinbruch manteria fatia minoritária. Parte das dívidas do negócio de cimento seria transferida para essa nova companhia.

A estratégia permitiria reduzir o endividamento da CSN sem a venda total do ativo, ao mesmo tempo em que atrairia um investidor com capacidade de expansão industrial.

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Perfil da CSN Cimentos

Criada em 2009, a divisão possui capacidade de produção de cerca de 17 milhões de toneladas anuais, distribuídas em 13 unidades industriais — sete integradas e seis de moagem — localizadas principalmente no Sudeste, além de operações no Nordeste e Centro-Oeste.

Nos últimos anos, a empresa expandiu por meio da aquisição da Cimento Elizabeth, em 2021, e da LafargeHolcim Brasil, em 2022, em negócios que somaram cerca de R$ 6 bilhões. Em 2024, tentou adquirir ativos da InterCement no Brasil e na Argentina, mas a negociação não avançou.

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Atualmente, a divisão registra receita anual próxima de R$ 5 bilhões, com vendas de aproximadamente 14 milhões de toneladas e Ebitda anualizado estimado em R$ 1,3 bilhão. O segmento responde por 10,6% da receita total da CSN.

Analistas estimam o valor bruto da empresa entre R$ 10,4 bilhões e R$ 11,2 bilhões, considerando múltiplo de oito vezes o Ebitda, embora haja expectativa de que o controlador busque valor superior.

Estratégia de expansão da J&F

Para a J&F, a aquisição representaria mais um passo na diversificação do portfólio. Além da JBS, o conglomerado atua nos setores de celulose, energia, mineração, fertilizantes, tecnologia financeira e banco digital, ampliando presença em áreas industriais e de infraestrutura nos últimos anos.

Impactos no setor

Caso a operação seja concluída, poderá alterar o cenário competitivo do setor de cimento no Brasil. A CSN Cimentos detém cerca de 21% do mercado nacional e ocupa a vice-liderança em vendas, atrás apenas da Votorantim Cimentos.

O mercado acompanha atentamente três pontos centrais das negociações: o modelo societário da NewCo, o volume de dívidas transferidas e o preço final do ativo. Esses fatores serão determinantes para o impacto da transação na estrutura de capital da CSN e na estratégia de expansão da J&F.

Enquanto as tratativas seguem sob reserva, analistas avaliam a possível venda como movimento decisivo para o reequilíbrio financeiro da CSN e oportunidade estratégica de crescimento industrial para a J&F.