Quando um adolescente diz que está triste, costumamos pensar que é apenas uma fase. Quando se fecha no quarto, acreditamos que logo vai passar. Quando responde com poucas palavras, imaginamos que seja apenas uma característica da idade. Mas os números mostram que talvez seja hora de ouvir com mais atenção aquilo que nossos jovens estão tentando nos dizer.

Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, 2024), realizada pelo IBGE, divulgada em 2026 revelam um cenário preocupante. Entre adolescentes brasileiros de 13 a 17 anos, 29,1% afirmaram sentir tristeza com frequência, enquanto 42,9% relataram sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados na maior parte do tempo. O dado mais alarmante mostra que 18,5% dos jovens entrevistados disseram pensar frequentemente que a vida não vale a pena ser vivida.

Mais do que indicadores, esses números ajudam a dimensionar um problema que afeta milhares de adolescentes brasileiros, representam jovens que estão sentados nas salas de aula, praticando esportes, convivendo com suas famílias e caminhando pelas ruas de nossas cidades. São adolescentes que, muitas vezes, convivem diariamente com sentimentos que não conseguem expressar com clareza.

Ao ler esses resultados, a pergunta que me faço não é apenas o que está acontecendo com os adolescentes. A pergunta é: será que nós, adultos, estamos ouvindo de verdade? Em meio à correria, às cobranças e às distrações do dia a dia, talvez muitas famílias tenham desaprendido uma das habilidades mais importantes para a construção de vínculos saudáveis: a escuta.

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Escutar um adolescente vai muito além de ouvir suas palavras. Muitas vezes, os pedidos de ajuda aparecem no silêncio, no isolamento repentino, na irritação constante ou na perda de interesse por atividades que antes traziam alegria. Nem sempre os jovens conseguem explicar o que sentem. Por isso, cabe aos adultos estarem atentos não apenas ao que é dito, mas também ao que é demonstrado.

Isso não significa que as famílias sejam as únicas responsáveis pelos desafios emocionais enfrentados pelos adolescentes. A pressão das redes sociais, as incertezas sobre o futuro e as mudanças próprias dessa fase da vida também exercem influência. No entanto, a família continua sendo um dos principais espaços de acolhimento, segurança e escuta.

Talvez nossos jovens não precisem de respostas prontas para todos os seus problemas. Talvez precisem, antes de tudo, de alguém disposto a sentar ao seu lado, deixar o celular de lado por alguns minutos e ouvir sem julgamentos. Em um mundo que fala cada vez mais, a escuta pode ser um dos atos de amor mais transformadores que existem.

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Os adolescentes não precisam de famílias perfeitas. Precisam de famílias presentes o suficiente para ouvir aquilo que nem sempre conseguem dizer.