Há pessoas que passam pela Terra deixando lembranças. Outras deixam um legado. Assim foi Alquimínia Ferreira Valadão, carinhosamente conhecida por todos como Dona Quininha.
Nascida em 30 de abril de 1918, na comunidade dos Vermelhos, Dona Quininha partiu para a eternidade em 27 de abril de 2017, poucos dias antes de completar 99 anos. Mas o tempo não foi capaz de apagar a memória de uma mulher que transformou incontáveis vidas com sua bondade, sua fé e seu coração generoso.
Caçula de três irmãs — Mariquita e Honoratinha —, Dona Quininha enfrentou desde cedo as dificuldades da vida. Não conheceu o pai, que faleceu quando ela ainda era um bebê. Foi criada por sua mãe, Benvinda Valadão, mulher por quem nutria um orgulho imenso e que sempre dizia ter desempenhado o papel de pai e mãe com amor e coragem.
Casou-se com Dorvelino Roque e iniciou sua vida na região da Prata, onde hoje fica a área das Águas do Paraíso. Foi naquela casa simples, que permanece de pé até hoje, que nasceram seus três filhos: Valter, Valdir e Valdemar. Mais tarde, movida pelo desejo de proporcionar um futuro melhor às crianças, trocou a vida na roça por um grande terreno na cidade, na Rua Álvares da Silva, para que os filhos pudessem estudar sem enfrentar longas caminhadas. Depois, a família passou a morar na Boca da Mata.
Sua família cresceu não apenas pelos laços de sangue, mas principalmente pelo amor. Além dos três filhos, acolheu como filha Clarice, filha de seu marido, e também realizou uma promessa feita à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, adotando Aparecida, conhecida por todos como Parecida da Quininha, que infelizmente partiu ainda jovem.
Ao longo da vida, Dona Quininha construiu uma família que sempre foi motivo de orgulho. Teve três filhos, onze netos, vinte e um bisnetos e um tataraneto, além de inúmeros netos do coração, pessoas que encontraram nela carinho, proteção, acolhimento e um amor que ultrapassava os laços de sangue.
Para sua família, Dona Quininha era muito mais que uma avó. Era porto seguro.
Sua generosidade nunca conheceu limites.
Sempre muito ativa, complementava sua renda com seus tradicionais fiados, com o tear, fiando algodão, confeccionando colchas e transformando simples retalhos em belíssimos tapetes. Em cada peça havia dedicação, paciência e muito amor. As linhas recém-fiadas secando no varal, geralmente tingidas de azul ou de outras cores, anunciavam mais uma obra feita por suas mãos habilidosas, transformando simplicidade em beleza.
Mas talvez sua maior missão tenha sido outra.
Para toda Arcos, Dona Quininha ficou conhecida pelas bênçãos que distribuía gratuitamente. Com seu rosário já gasto pelo tempo, de contas cinzas e crucifixo prateado, e sua fé inabalável, acolhia crianças, jovens, adultos e idosos. Benzia "vento virado", "carne quebrada", cortava cobreiro, confortava corações aflitos e orava por todos que batiam à sua porta.
Jamais cobrou um centavo.
Costumava dizer que Deus lhe retribuía em dobro.
Muitas vezes deixava de almoçar ou jantar para atender quem precisava. Durante algumas orações, emocionava-se profundamente e as lágrimas escorriam pelo rosto. Quem conviveu com ela dizia que era como se sentisse a dor de quem buscava sua ajuda e, através da oração, levasse consigo parte daquele sofrimento.
Sua santa de devoção era Nossa Senhora da Imaculada Conceição, a quem fez inúmeras promessas e de quem dizia sempre receber graças.
Pequena na estatura, gigante na alma.
Quem teve o privilégio de conhecê-la guarda lembranças simples, mas inesquecíveis: o rosário sempre nas mãos, o velho tear trabalhando sem parar, os tapetes confeccionados com carinho, o café sempre pronto, os apelidos afetuosos dados aos netos e o abraço acolhedor de quem jamais negou ajuda a alguém.
Para muitos, Dona Quininha era uma benzedeira. Para sua família e para todos que a conheceram, era um verdadeiro exemplo de fé, humildade, dedicação e amor ao próximo. Sua casa era um refúgio para quem chegava aflito e saía fortalecido pelas palavras de esperança e pelas orações sinceras.
Dona Quininha cumpriu sua missão com simplicidade, sem buscar reconhecimento. Viveu para servir, acolher e amar. Fez da fé um instrumento de cura, da humildade um exemplo de vida e da caridade um compromisso diário.
Sua história permanece viva não apenas na memória da família, mas também no coração de todos aqueles que um dia encontraram conforto em suas palavras, em suas orações ou em um simples gesto de carinho.
Há pessoas que passam pela vida.
Outras deixam marcas eternas.
Dona Quininha foi uma delas. Um verdadeiro anjo que Deus emprestou à Terra para ensinar que a maior riqueza que alguém pode deixar não está nos bens materiais, mas no amor, na fé e no bem que fazemos ao próximo. Seu legado continuará vivo por gerações.
Comente