Para as indústrias brasileiras, controlar resíduos deixou de ser apenas uma questão de destinação correta. Além de registrar a movimentação por meio do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), as empresas precisam informar anualmente dados sobre geração, tipologia, armazenamento e destinação no Inventário Nacional de Resíduos Sólidos. Na prática, quanto maior a operação, maior também é o volume de informações que precisa ser organizado, cruzado e transformado em indicadores para a gestão.
O desafio se torna especialmente complexo em companhias que administram múltiplas plantas industriais. Uma unidade pode trabalhar com uma planilha, outra utilizar um sistema diferente e uma terceira concentrar documentos em pastas compartilhadas. Financeiro, sustentabilidade, operações e equipes ambientais passam a controlar partes diferentes da mesma operação, enquanto a diretoria precisa de uma visão única para responder quanto cada fábrica gera, quanto paga pela destinação e onde existem oportunidades de redução de custos.
É nesse ponto que a gestão de resíduos começa a deixar de ser tratada apenas como uma obrigação ambiental e passa a entrar na agenda de eficiência operacional. O problema não está necessariamente na falta de informação, mas na dificuldade de transformar documentos e registros dispersos em um dado consolidado de resíduos multiunidade, capaz de mostrar diferenças de custo, desempenho e destinação entre as operações.
“Quando uma empresa cresce, ela não aumenta apenas o volume de resíduos. Aumenta também a quantidade de informação que precisa controlar. Cada fábrica pode ter fornecedores, transportadores, tipos de resíduos e processos diferentes. Se esses dados ficam separados, a empresa passa a gastar energia tentando descobrir o que aconteceu, quando poderia estar usando essa informação para decidir o que fazer”, afirma Eduardo Nascimento, CEO da Minha Coleta.
O custo de cada fábrica trabalhar de um jeito
Em uma operação distribuída, diferentes áreas costumam enxergar apenas uma parte da cadeia. O financeiro acompanha pagamentos, o departamento ambiental controla documentos regulatórios, sustentabilidade consolida indicadores e operações monitora fornecedores, transportadores e destinadores. O problema aparece quando essas informações precisam ser cruzadas. Uma empresa pode saber quanto cada unidade gera individualmente, mas não conseguir comparar rapidamente o custo por tonelada entre as fábricas. Também pode ter os MTRs registrados e, ainda assim, encontrar dificuldade para relacioná-los aos respectivos Certificados de Destinação Final (CDFs).
A consequência é um processo de gestão que depende de levantamentos manuais para responder perguntas que deveriam estar disponíveis rapidamente para a liderança: qual unidade gera mais resíduos? Qual tem o maior custo de destinação? Qual fornecedor concentra mais ocorrências? Onde a taxa de reciclagem está evoluindo? Quanto a companhia destinou no último trimestre?
“Cada informação, isoladamente, parece suficiente. O problema aparece quando a diretoria faz uma pergunta que atravessa várias áreas”, diz Nascimento.
O retrabalho também cria um custo que raramente aparece como uma linha específica no orçamento. Horas de equipes ambientais em auditorias, solicitações de dados entre fábricas, consolidação de planilhas e conferência de documentos fazem parte da operação, mas dificilmente são contabilizadas como um impacto direto da fragmentação dos dados.
Compliance vira ponto de partida para eficiência
A pressão regulatória ajuda a explicar por que esse volume de informação precisa estar cada vez mais organizado. O SINIR estabelece que as indústrias devem reportar anualmente informações sobre os resíduos gerados, armazenados e destinados, complementando os dados já declarados no sistema de MTR.
Com isso, o documento que antes era tratado apenas como comprovação de uma obrigação passa a fazer parte de uma base maior de informações sobre a operação. A questão deixa de ser somente onde está o MTR ou o CDF e passa a envolver a capacidade da empresa de relacionar esses documentos a volume, custo, unidade, transportador e destinador.
A mudança é particularmente relevante para empresas que fazem gestão de resíduos em múltiplas plantas industriais. Sem uma estrutura comum, cada unidade pode desenvolver seus próprios processos e indicadores, dificultando a comparação entre operações e a identificação de desvios.
“Existe uma diferença grande entre ter informação e conseguir utilizá-la. Uma empresa pode ter todos os documentos necessários e ainda assim não conseguir responder rapidamente quanto gasta para destinar seus resíduos, quais unidades estão acima da média ou onde existe uma oportunidade de redução de custo”, afirma o executivo.
Do MTR e CDF ao dado que chega ao board
A digitalização dos processos é uma das respostas a esse cenário. A automação de MTR e CDF pode reduzir etapas manuais, organizar documentos e facilitar o cruzamento de informações que antes estavam distribuídas entre diferentes arquivos e sistemas.
Mas a tecnologia passa a ter um papel mais estratégico quando esses registros deixam de funcionar apenas como documentos de compliance.
“Não adianta simplesmente tirar uma informação da planilha e colocá-la em um sistema. O ganho acontece quando o MTR conversa com o CDF, com o volume gerado, com o custo, com a unidade e com o destinador. A partir daí, o documento deixa de ser apenas uma obrigação de compliance e passa a ser uma peça de informação para a gestão”, afirma Nascimento.
Nesse modelo, uma plataforma SaaS de gestão de resíduos pode integrar diferentes etapas da cadeia e conectar informações do gerador, transportador e destinador. Para uma companhia com dezenas de unidades, a possibilidade de comparar operações em uma mesma base permite identificar diferenças de custos e desempenho que dificilmente aparecem quando cada fábrica acompanha apenas os próprios indicadores.
“Quando você coloca todas as unidades no mesmo painel, começa a enxergar coisas que não aparecem quando cada fábrica olha apenas para si. Pode existir uma unidade pagando mais pela destinação, um fornecedor concentrando ocorrências ou um material com potencial de recuperação sendo tratado simplesmente como custo”, afirma Eduardo.
Quando o resíduo deixa de ser apenas despesa
A consolidação dos dados também abre espaço para uma discussão que vai além da eficiência operacional: a possibilidade de transformar resíduo em receita. O raciocínio parte de uma mudança simples. Em vez de perguntar apenas quanto custa transportar e destinar determinado material, a empresa passa a avaliar quanto daquele volume poderia ser reduzido, reaproveitado, reciclado ou encaminhado para cadeias capazes de recuperar seu valor econômico.
A oportunidade é relevante em um país que ainda apresenta baixa taxa de recuperação de resíduos. Segundo a CNI, apenas 1,6% do total de resíduos coletados no Brasil é recuperado, indicador que evidencia o espaço existente para ampliar a transformação de materiais descartados em recursos de valor.
“Durante muito tempo, o resíduo foi colocado na categoria de despesa inevitável. Mas, quando você passa a ter dados consolidados, consegue perguntar quanto daquele custo poderia ser evitado, reduzido ou transformado em valor. A discussão deixa de ser apenas ambiental e passa a ser financeira”, diz Nascimento.
É nesse cenário que empresas de tecnologia ambiental começam a ocupar um espaço que tradicionalmente ficou concentrado nas áreas de meio ambiente e sustentabilidade. A Minha Coleta desenvolveu uma plataforma SaaS para gestão de resíduos que centraliza informações como MTRs, CDFs, indicadores e dados operacionais, com o objetivo de facilitar a visualização da cadeia e a tomada de decisão.
A tecnologia, porém, é parte de uma transformação mais ampla. Conforme as companhias aumentam o número de unidades e o volume de informações ambientais que precisam administrar, a gestão desses dados passa a se relacionar diretamente com produtividade, compliance, governança e alocação de recursos.
Para Nascimento, o próximo estágio consiste justamente em fazer com que a informação produzida pela operação chegue às decisões estratégicas.
“A maturidade da gestão de resíduos não está apenas em conseguir provar que o material foi destinado corretamente. Isso continua sendo fundamental. Mas o próximo passo é usar tudo o que acontece nessa operação para melhorar o negócio. Se os dados mostram desperdício, risco, ineficiência ou oportunidade de recuperação de valor, essa informação precisa chegar à decisão. Caso contrário, ela continua sendo apenas um registro.”
Em grandes operações, portanto, o desafio já não é apenas saber para onde vai o resíduo. É entender o que os dados sobre esse material revelam sobre custos, eficiência e oportunidades de negócio.
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