A criação do Parque Estadual da Pedra do Cálice, proposta pelo deputado Rubens Gonçalves de Brito, o “Bim da Ambulância”, do Avante, pode colocar “em xeque” um território que reúne hoje propriedades rurais, áreas produtivas, empresas, trabalhadores e atividade mineral, além de uma cadeia de transporte, fornecedores e serviços que movimenta a economia de Pains, Pimenta e Córrego Fundo. O Projeto de Lei n.º 5.724/2026 prevê uma unidade de conservação de 9.253 hectares, abrangendo os três municípios, e levanta questionamentos sobre os possíveis efeitos da proposta para o desenvolvimento socioeconômico da região.
Levantamento mostra que indústria de transformação, extração mineral, transporte e agropecuária concentram 5.190 das 7.018 pessoas ocupadas consideradas nos três municípios, o que corresponde a aproximadamente 74%. O estudo aponta o peso das atividades que podem ser alcançadas por eventuais restrições de uso do solo, novas regras de manejo e limitações à expansão da produção na região. É nesse ponto que o debate sobre a Pedra do Cálice ultrapassa a preservação ambiental e entra nos campos econômico, social e fundiário. O que existe, afinal, dentro dos 9.253 hectares e quais segmentos poderão ser efetivamente alcançados pelo perímetro proposto pelo “Bim da Ambulância”?
O projeto, apresentado em maio deste ano, está em tramitação na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). O parlamentar é natural de Belo Horizonte e tem atuação política concentrada principalmente na Região Metropolitana da capital mineira. Uma matéria de mesmo teor havia sido apresentada à Casa em 2025 pelo deputado Gil Pereira, mas acabou retirada antes de avançar para as discussões em plenário, após questionamentos sobre os possíveis efeitos econômicos, sociais e territoriais. Agora, em 2026, a proposta retornou à ALMG, prevendo a destinação de 9.253 hectares ao parque, que abrangeria Pains, Pimenta e Córrego Fundo, voltando também a mobilizar moradores e setores produtivos da região, temerosos com os possíveis efeitos da unidade de conservação sobre o território.
Impacto de mais de 82% nos empregos em Pains
Em Pains, com população de 8.142 habitantes e 3.568 pessoas ocupadas, os setores considerados no levantamento reúnem 2.943 trabalhadores. São 1.517 na indústria de transformação, 312 na extração mineral, 185 no transporte e 929 na agropecuária. Juntos, representam 82,47% do pessoal ocupado do município. A dimensão da cadeia mineral fica mais evidente quando indústria, extração e transporte são considerados em conjunto. São 2.014 trabalhadores nesses três segmentos, 56,44% do pessoal ocupado. A agropecuária responde por outros 929 trabalhadores, ou 26,03%.
De 24.729 hectares de área produtiva rural, cerca de 8.388 hectares estariam diretamente alcançados pelo perímetro reservado ao parque, o equivalente a 33,91%. Entre 320 propriedades inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR), 268 estariam diretamente afetadas, ou 83,75%. Considerados também os efeitos indiretos sobre fornecedores, transporte, comércio e serviços, o levantamento estima que a repercussão econômica de eventuais restrições poderia impactar praticamente toda a população de Pains.
Projeto afeta cerca de 60% da população ativa em Córrego Fundo
Em Córrego Fundo, o cenário também revela forte concentração econômica. Dos 2.274 trabalhadores do município, 1.371 estão na indústria de transformação (1.141 trabalhadores), na mineração (41) e no transporte (189). O grupo representa 60,28% do pessoal ocupado.
Os números mostram a importância da cadeia industrial e mineral para um município cuja economia está fortemente vinculada ao segmento do calcário. Qualquer alteração nas condições de uso do território, portanto, pode produzir efeitos que ultrapassem as áreas diretamente ocupadas pelas atividades.
Agropecuária, indústria e mineração dividem espaço na economia de Pimenta
Pimenta apresenta uma composição econômica diferente. A agropecuária de corte e leiteira tem peso semelhante ao da indústria de transformação, enquanto a extração mineral e o transporte completam uma estrutura produtiva diversificada. O município tem 8.563 habitantes e 1.176 pessoas ocupadas. São 384 trabalhadores na indústria de transformação, 22 na produção mineral, 58 no transporte e 412 na agropecuária. Nos segmentos industrial, na mineração e no agro, são 818 empregados, ou 69,55% do pessoal ocupado.
O levantamento aponta que a proposta do parque alcança áreas produtivas de Pimenta e pode interferir em cerca de 11,5% da área destinada a pastagens e lavouras no município. A análise aponta ainda possíveis restrições de uso do solo em propriedades inscritas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) que fazem divisa ou avançam sobre o perímetro delimitado para o Complexo da Pedra do Cálice. Nesse caso, os possíveis efeitos não se restringiriam à mineração. Restrições a novas frentes produtivas, ao uso do solo ou à circulação e ao escoamento de cargas poderiam repercutir sobre transportadores, fornecedores, comércio e serviços, ampliando a repercussão econômica para além do território diretamente alcançado.
Prefeitos são contrários à proposta
Procurados pela reportagem, os prefeitos dos três municípios abrangidos pelo perímetro desenhado para o Parque da Pedra do Cálice manifestaram a preocupação com os impactos que a proposta pode gerar, se concretizada.
“O meu interesse é cuidar de Pains. E cuidar de Pains é preservar nossas riquezas, mas é também proteger nossa economia e os empregos da nossa gente. Do jeito que está sendo colocado hoje, eu não posso ser favorável. Eu não tenho todas as respostas sobre o impacto que isso vai trazer para a Pains. E não podemos brincar com o futuro da cidade”, falou o chefe do Executivo de Pains, Itamar Rafael de Castro.
À frente da administração de Pimenta, Geovânio Macedo classificou o Projeto de Lei n.º 5.724/2026 como um absurdo. “É uma pauta política, que não faz sentido. Eu e outros representantes da região já fomos a Belo Horizonte em mobilização contra essa matéria e se preciso for, voltaremos. Não podemos deixar a economia do território ser prejudicada dessa forma. Nunca fomos consultados a respeito, não foi feita pesquisa sobre os impactos que isso pode trazer para as cidades”, comentou.
Córrego Fundo, segundo o prefeito Danilo Oliveira Campos, também está se movimentando contra a proposta. “A Pedra do Cálice já é um bem protegido. Não há justificativa para a delimitação de 9.253 hectares como previsto, o que vai prejudicar o desenvolvimento socioeconômico como um todo. Não houve qualquer conversa, nenhuma apresentação de dados a respeito do quanto podemos ser impactados. Eu sou contrário e tenho certeza de que a maioria da população local também”, afirmou.
População se mobiliza e destaca efeitos negativos
A dimensão econômica e territorial dos três municípios leva a uma questão central: quais propriedades, atividades e estruturas estão efetivamente dentro dos 9.253 hectares propostos? O memorial que acompanha o Projeto de Lei nº 5.724/2026 delimita a área da unidade de conservação, mas o debate sobre a implantação envolve informações que vão além do traçado. Entre elas estão o número e a localização das propriedades particulares, áreas produtivas, empresas, empregos, empreendimentos licenciados e direitos minerários eventualmente abrangidos pela proposta.
Essas informações também aparecem entre os questionamentos registrados na consulta pública disponibilizada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para coletar opiniões sobre o projeto. Há manifestações que exigem estudos técnicos, econômicos, sociais e fundiários e questionam quais propriedades, empresas, empregos e direitos minerários poderão ser alcançados. Também são apresentadas alternativas ao modelo proposto, como Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), zonas de amortecimento e corredores ecológicos.
Até esta terça-feira, 15 de setembro, o painel de participação popular da ALMG registrava 597 votos contrários e nove favoráveis ao projeto, além de 146 comentários. O projeto segue em tramitação e ainda terá de passar pelas etapas previstas no processo legislativo, incluindo a análise das comissões e pareceres. Enquanto isso, a consulta pública permanece aberta no site da Assembleia. Para participar, é necessário acessar o painel de participação popular da ALMG (https://www.almg.gov.br/participe/painel/20480) e realizar um breve cadastro.
A reportagem segue aberta à manifestação do deputado “Bim da Ambulância” a respeito do projeto.
Comente